16/2/08
Subjetivação e constituição de territórios - I
Dinâmica e concomitância na relação entre os processos de subjetivação e de constituição de territórios
Flávio Boleiz Júnior
Ao estudar a sociedade em sua obra “A produção da sociedade”, Touraine (1975) categoriza três planos de análise e demonstra que: a) a sociedade se produz, b) a sociedade se adapta, e c) a sociedade se consome. Ao avaliar o nível em que a sociedade se produz — que se pode também chamar de nível da historicidade —, Touraine diz que a sociedade se constitui a partir de relações de dominação (que o Professor Jean-Jacques Schaller simboliza por A/B), que são relações de força. A partir dessas relações de força que se estabelecem entre os atores sociais, produzem-se, no nível da sociedade que se adapta, acordos e “contratos” de convivência, que se expressam nas leis — por isso este nível pode também ser chamado de institucional ou político. Finalmente no nível da sociedade que se consome — que também se pode chamar de organizacional e funcional de consumo —, refletem-se os resultados das relações de dominação que determinam os modos de produção das leis e políticas públicas.
Essas mesmas relações de força têm empurrando, para além da linha-limite da inclusão social, cada dia mais e mais indivíduos (esquema da “Sociedade de Segregação” na figura ao lado). O mesmo Touraine (2003) afirma que “a lógica dominante do sistema de gestão da sociedade quer que haja por volta de vinte por cento em todos os países ricos que sejam postos fora do circuito. Esse capitalismo extremo é hoje em dia triunfante.”

A exclusão social, operada pelo modo de produção da própria sociedade, acaba por arremessar para além das margens do convívio social aqueles a quem exclui. Numa sociedade que se orienta pela propriedade privada dos serviços e dos espaços, para onde vão todos esses excluídos? Que lugares vão ocupar na teia de relações e no espaço físico organizado pelas instituições políticas e sociais?
Parafraseando Alberto Melucci em sua obra “O jogo do eu”, ao pensarmos na noção de território como lugar, parece que o espaço que todos nós herdamos da modernidade é aquele demarcado pelas cercas e muros que constituem os limites da propriedade privada. Espaço restringido aos lugares em que podemos ir, que organiza a vida na sociedade capitalista, assinala papéis, mede o sucesso dos indivíduos e permite-lhes situar-se a maior ou menor distância da fronteira que separa o ambiente dos excluídos daquele dos (ainda) incluídos socialmente [1]. O espaço se faz representar numa espécie de esquadrinhamento de fronteiras que, de maneira hierárquica, vão-se posicionando socialmente, possibilitando aos indivíduos situarem-se quanto aos lugares possíveis de serem preenchidos, ocupados, utilizados. Esse esquadrinhamento espacial, ao mesmo tempo, explicita quais as posições que não devem ser ultrapassadas, que se reservam apenas a determinados extratos sociais (castas?), cuja evidência de freqüência se impõem como referência de identificação daqueles que se destacam como possuidores de poder de consumo numa sociedade profundamente consumista.
Ao contrapor a inclusão e a segregação presentes e atuantes no cenário social, verifica-se que por um lado, o indivíduo a partir da sua inserção num dado território, pode vir a construir uma identidade que o ligue a esse lugar e aos demais indivíduos que aí circulam e interagem e, dessa maneira, transformar seu modo de estar no mundo. Por outro lado, também a partir do encontro de vários sujeitos que se percebem de maneira comum em termos de identidade, nas suas ações em busca de mesmos objetivos, pode-se ir constituindo um novo território no espaço que esses indivíduos circulam ou ocupam.
Perguntamos, neste ponto, se os espaços ocupados pelos indivíduos, na constituição dos territórios, se limitam a áreas demarcadas fisicamente, apenas, ou se ultrapassam os limites dos muros, das cercas e das linhas imaginárias das fronteiras para se expandirem ou serem transportados pelos sujeitos que os constituem, em sua circulação pelos diferentes lugares que freqüentam. Melucci nos auxilia nesta reflexão, ao afirmar que
a geografia territorial como quantidade mensurável é substituída por uma geografia mental como possibilidade de mover-se no espaço. Junto ao tempo, também o espaço torna-se múltiplo e descontínuo, exigindo a capacidade de mudar de bitola (no sentido exato da palavra), de mudar de quantidade e qualidade, de localizar-se e deslocar-se com grande elasticidade. (2004, p. 30 - grifos meus)
Noções de proximidade e distância, localidade e deslocamento, extensão e tamanho territorial, assumem novas conotações à medida em que os indivíduos se apropriam delas e, subjetivamente, passam a usá-las e vivê-las de diferentes maneiras e em diversas ordens em suas vidas.
Certos lugares se constituem “ecosocialmente” com solidez. As interações da comunidade vão modificando o território sobre o qual se estabelecem, ao mesmo tempo em que se vai tecendo uma rede de afinidades e formando laços identitários que, ao passo que se solidificam, influenciam a formação dos “eu” e dos “nós” locais.
Referimo-nos, acima, à relação que se pode observar entre os processos de subjetivação e os de constituição de territórios, como sendo de um tipo dinâmico e concomitante. O dinamismo dessa relação pode ser percebido a partir da verificação do modo como as inter-relações entre os indivíduos e o lugar, numa somatória de natureza e cultura, vão constituindo a subjetividade dos “eu” e dos “nós” que vão ocupando e transformando esse lugar, ao mesmo tempo em que vão se modificando e se impregnando pelo mesmo lugar.
A concomitância dessa relação, entre os processos de subjetivação e de constituição de territórios, pode ser observada à medida que se analisa o lugar-para-onde-vão os excluídos da sociedade de segregação, num mundo em que a propriedade privada já “cercou”, “murou” e “delimitou” praticamente todo o espaço geográfico, principalmente se nos referirmos à especificidade das cidades.
Numa analogia ao processo histórico de decadência do sistema feudal, poder-se-ia pensar a constituição de novos territórios, novas identidades e novos sujeitos (individuais e sociais) a partir das relações entre os indivíduos que se situam “fora” (os excluídos) e os que se situam “dentro” (ainda incluídos) da sociedade pós-industrial de segregação. Para se estabelecer tal analogia, vejamos primeiramente como se deu a movimentação territorial dos indivíduos que, colocados para fora dos muros dos feudos, construíram sua subjetividade nas inter-relações identitárias que passaram a estabelecer nos burgos. Longe do modo de vida “inter-feudo”, em que a família toda vivia no mesmo espaço numa relação direta de exploração pelo senhor feudal, ocorre o que Stuart Hall chama de “emergência de uma concepção mais individualista do sujeito”. Ele diz que
a emergência de noções de individualidade, no sentido moderno, pode ser relacionada ao colapso da ordem social, econômica e religiosa medieval. No movimento geral contra o feudalismo houve uma nova ênfase na existência pessoal do homem, acima e além de seu lugar e sua função numa rígida sociedade hierárquica. (2005, p. 28)
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