16/2/08
Subjetivação e constituição de territórios - II
Dinâmica e concomitância na relação entre os processos de subjetivação e de constituição de territórios
Flávio Boleiz Júnior
Observemos, hoje, o movimento de deslocamento que os vinte por cento — no mínimo — de excluídos são obrigados a fazer em relação ao mundo dos (ainda) incluídos. Podemos pensar que a movimentação territorial dos indivíduos que, colocados para fora dos muros da sociedade com possibilidade de consumo, desencadeia, também — como outrora no período do processo de dissolução do sistema feudal — a formação de novas subjetividades em inter-relações identitárias que passam a se estabelecer em novos territórios que se situam para além dos limites das relações sociais dos de dentro. Esses novos territórios se somam na constituição do lugar situado “fora” no esquema da sociedade de segregação. Esses territórios se constituem a partir de uma nova lógica, diferente daquela já complexa da constituição dos territórios situados “dentro”. Portanto, “dentro” e “fora” vão-se constituindo em posições passíveis de ser observadas a partir de referenciais que se encontram em pólos opostos. Num movimento contínuo de exclusão social, não seria de espantar a possibilidade de uma inversão no esquema da sociedade de segregação, de modo que as fronteiras dos “fora” delimitasse um contingente muito maior do que do que a dos “dentro!

Vemos que há territórios, pois, que não se constituem com a mesma solidez ecosocial que outros. A contemporaneidade caracteriza-se por um tempo em que os indivíduos constroem suas subjetividades a partir das interações entre as várias identidades que precisa possuir para poder transitar na sociedade. Melucci (2004, p. 50) diz que, “respeitando os diferentes graus de complexidade, poderemos falar de muitas identidades que nos pertencem: a pessoal, a familiar, a social, e assim por diante; o que muda é o sistema de relações ao qual nos referimos e diante do qual ocorre nosso reconhecimento.”
Esses “sistemas de relações” podem ser compreendidos como situações diferente por quê passamos ou como territórios diferentes pelos quais transitamos. Se analisarmos esses sistemas de relações do ponto de vista dos territórios, poderemos perceber que cada um desses territórios que marca nossas diferentes identidades pode se configurar em lugar geograficamente situado ou em espaço atinente a “uma geografia mental como possibilidade de mover-se no espaço.” (MELUCCI, 2004, p. 30)
Sem falar em territórios, Stuart Hall relaciona as múltiplas identidades formadoras do sujeito pós-moderno com “diferentes sistemas de significação e representação cultural” por onde tal sujeito circula. Hall afirma:
O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. (…) A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente. (2005, p. 13)
Os territórios onde se assume cada uma dessas identidades que compõem a subjetividade do indivíduo, sejam eles fixos ou cambiantes, são espaços em que se dão “relações que compreendem nossa capacidade de nos reconhecermos e a possibilidade de sermos reconhecidos pelos outros.” (MELUCCI, 2004, p.50) Esses territórios são povoados pelo trânsito de inúmeros “outros” que, relacionando-se como indivíduos em busca de mesmas metas através de meios comuns, constroem-se como sujeitos (“eu”) ao mesmo tempo em que como atores (“nós”). Enquanto cada sujeito aí se situa como indivíduo com sua identidade pessoal, na inter-relação dos vários sujeitos com o grupo acaba por constituir-se uma identidade coletiva. Tal como no caso individual, cada sujeito integra-se a diferentes identidades coletivas, conforme o grupo ou território por onde esteja circulando. A transitoriedade entre os diferentes grupos acaba por dotar os sujeitos de diferentes traços das culturas, das tradições, das linguagens e das histórias particulares de cada território. Ao falar das pessoas que transitam pelos diferentes territórios em suas relações sociais, Hall (2005, p. 89) afirma que “elas não são e nunca serão unificadas [...] porque elas são, irrevogavelmente, o produto de várias histórias e culturas interconectadas, pertencem a uma e, ao mesmo tempo, a várias ‘casas’ (e não a uma ‘casa’ em particular).”
Na relação com o grupo, o indivíduo busca o fortalecimento de sua própria identidade, ao mesmo tempo (de maneira dinâmica) em que reforça a identidade do grupo. Melucci refere-se em sua obra (2004, p. 44-49) a três níveis de tensões que se apresentam nas relações de identificação do indivíduo com o grupo. O primeiro nível diz respeito ao conflito entre o que deve mudar e o que deve se manter no indivíduo para que se constitua a identidade coletiva. O segundo nível diz respeito ao conflito entre o que o ator coletivo aparenta quando visto de fora e o que ele realmente é quando conhecido por dentro. O terceiro nível de tensão diz respeito à lógica do “custo-benefício”, que comporta o conflito entre o mero estar juntos e a ação coletiva que constrói algo em conjunto, pois quando o estar juntos não desencadeia uma construção coletiva, a relação do grupo não se sustenta.
Conclusão
“Eu” e “nós” interagem em relação direta na constituição de territórios. Dessa relação emergem diferentes identidades que vão sendo apropriadas tanto pelo sujeito como pelo coletivo que ocupa e constitui o território sobre o qual se estabelece. As interações entre sujeito, coletivo, território e as múltiplas identidades, caracterizam-se pelo dinamismo e pela concomitância em que se dão. A noção de território, aqui, acaba por se identificar como contribuinte para a formação de sujeitos individuais e coletivos, ao mesmo tempo em que a formação de sujeitos individuais, em sua inter-relação com o coletivo contribuem para a constituição de novos territórios.
Territórios e subjetividade, pois, interconectam-se, complementam-se e apóiam-se mutuamente enquanto constructos de seus significados mútuos e específicos.
Referências Bibliográficas
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
MELUCCI, Alberto. O Jogo do eu. São Leopoldo (RS): Editora Unisinos, 2004.
TOURAINE, Alain. O “eu”, o “si”, os “nós”. In HEURGON. Edith et LANDRIEU, Josée (dir.) Des “nous” et des “je” qui inventent la cite. p. 74-78, Paris (France): Éditions de l’Aube, 2003.
TOURAINE, Alain. A produção da sociedade. (obra citada em aula pelo Prof. Jean-Jacques Schaler, não disponível no mercado brasileiro no momento), 1975.
[1] Melucci, ao referir-se ao tempo, nos diz: “O tempo que todos nós herdamos da modernidade é aquele medido pelo relógio, aquele que marca nossos horários cotidianos, organiza a vida social, assinala papéis, mede atrasos e decide o valor dos desempenhos.” (p. 20)
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