19/2/08
RASPALL - de Pere Calders
Obs.: “Raspall” é uma palavra em catalão que significa: escova.
No dia em que o “Truc” – um filhote de cachorro – comeu o chapéu do senhor Sala, a senhora Sala decidiu que aquilo já ultrapassava toda mesura canina, que só mesmo uma paciência de santo podia haver tolerado que as coisas chegassem até ali. Então, reunida a família e escutado o parecer de cada um, chegou-se ao acordo de que a filha casada do jardineiro encarregar-se-ia do destino do “Truc” e ele iria morar em sua casa.
O menino Sala sofreu um desgosto de morte. Parecia-lhe que não seria possível encontrar uma maneira de levar adiante sua própria vida, que sem o cachorro tudo era enfadonho e sem objetivo. Passado o momento das lágrimas, o problema que se lhe apresentou foi o de dar um destino honorável à quantidade de afeto que a ausência do “Truc” lhe deixava. Começou a olhar com outros olhos o canário de sua tia, mas podia-se fazer tão poucas combinações realmente divertidas com o passarinho que ele logo percebeu que seu relacionamento não passaria nunca de uma relação bem superficial.
Então imaginou que o abatjour com pé alto da biblioteca era um fiel soldado que não tinha outra ocupação que servi-lo. Isso o levou a crer, durante duas curtas horas, que houvesse resolvido o seu problema, mas percebeu que lhe sobrava ainda uma terrível quantidade de estima perdida por todos os rincões de sua alma. Experimentou estabelecer um companheirismo duradouro com uma bola feita de roupas, com uma meada de barbante que, por ser barbante, era único em seu tipo e, sucessivamente, com um pufe americano, uma planta nova do jardim e um bastão que haveria de fazer inveja a todos os seus amigos. E deu-se conta de que toda a coragem que havia colocado em jogo, com o objetivo de superar a situação, não lhe servira de nada, que a diferença entre todas aquelas coisas e um cachorro era tão grande que não seria possível brincar sem percebê-la. Então se convenceu de que precisava encontrar um substituto de cachorro, algo que, sem ferir a memória do “Truc”, pudesse parecer-lhe semelhante.
Procurou por toda a casa de cima abaixo, revirou os armários e todas as gavetas e, finalmente, em um canto do sótão, encontrou uma grande escova passada de moda, definitivamente descartada pela família. Fechando os olhos, passou-lhe a mão por cima dos pelos e isso lhe fez sentir a sensação de que acariciava as costas de um cachorro. Essa sua experiência foi tão boa, que o menino Sala acreditou que não precisava procurar mais. Amarrou a escova com um pedaço de barbante e ao final de cinco rápidos minutos já estava bem longe de crer que arrastava uma escova. Estava certo de que “Raspall”, um cachorro de raça estranha, o seguia de cima abaixo por toda a casa.
À noitinha, meio cansado pela capacidade de lhe seguir de seu novo amigo, o menino foi dormir e, antes de deitar-se, amarrou “Raspall” ao pé de uma cadeira. Mas enquanto ainda não havia pegado no sono, não conseguia deixar de pensar na docilidade de “Raspall” por adaptar-se a qualquer tipo de brincadeira em que ele pudesse pensar. Sentiu-se mal ao pensar que “Raspall” teria que passar a noite amarrado, dormindo na friagem dos ladrilhos, e, seguindo um impulso indominável, saltou da cama de uma revoada, libertou “Raspall” de sua guia e levou-o para dormir com ele na cama.
E vejam se não acontecem coisas extraordinárias às vezes! Antes de dormir o menino percebeu que a escova irradiava calor de vida e apertava-se contra seu colo fazendo-lhe carinho. Isso, naturalmente, lhe pareceu uma coisa muito séria, porque uma coisa é que se julgue converter uma escova em um cachorro e uma outra coisa bem diferente é que essa transformação se produza a ponto de se poder senti-la. Levantou-se, acendeu a luz e comprovou estupefato que a escova, sem perder absolutamente a forma de escova, movia-se como um cachorro. Saltou dando algumas voltas em torno do menino e depois deitou-se de barriga para cima, esperando que o acariciasse. Qualquer um que tenha notícia deste prodígio se perguntará como poderia ter patas para caminhar e barriga para mostrar uma escova que continue tendo a forma de uma escova. Mas, vencida a primeira dificuldade de dar-lhe vida, este detalhe fica tão desprovido de qualquer importância que nem vale a pena inquietar-se com ele.
Foi o que achou o menino e logo sentiu o desejo de ir despertar seus pais para lhes contar sua maravilhosa descoberta. Porém, sensato como era, e conhecedor do “semancol” que um filho deve ter para com seus pais, decidiu esperar pelo dia seguinte.
Fique bem entendido, é claro, que não pôde dormir por toda noite, e bem cedo, quando escutou que sua mãe já lidava pela casa, foi encontrá-la levando “Raspall” embaixo do braço.
— Veja, mamãe! – disse-lhe. Encontrei uma escova que na verdade é um cachorro. Se move, conhece a minha voz e tem pulgas.
A mãe o viu, e sem interromper o que estava fazendo respondeu:
— Não seja tonto e solte essa andrômeda. Você já está grandinho e deveria de ter mais senso.
O menino sentiu-se ofendido e pensou, uma vez mais, no ar de superioridade que possuem os adultos e na sua maneira absurda de viver. Não disse mais nada, levou “Raspall” para seu quarto e pensou que, se não desejavam acreditar, eles é que perderiam com isso.
Na hora do almoço a mãe contou, fazendo graça, a descoberta do filho e o pai riu como se tivesse escutado a melhor piada do mundo. O menino não replicou, porque sabia que a justiça sempre vence, e resolveu esperar que, cedo ou tarde, todos pudessem comprovar que há coisas que não são tão engraçadas como parecem.
E vejam que ele estava tão certo que na noite seguinte foi despertado com um latido de “Raspall”. Acordou e escutou barulho de luta na biblioteca e a voz de seu pai pedindo ajuda. “Raspall” rosnava na porta e estava estranhamente inquieto. O menino abriu a porta do quarto, desceu as escadas na ponta dos pés e viu seu pai lutando com um ladrão que lhe dominava e estava a ponto de acertar-lhe a cabeça com um ferro da lareira.
— Pega, “Raspall”, ataca!
“Escova” correu como o vento, saltou para cima do ladrão e deu-lhe uma mordida na canela. O ladrão ficou tão surpreso pela agressão daquela espécie de coisa, que rendeu-se imediatamente e foi levado à polícia com os pés e mãos amarrados.
Pouco depois, a mãe afirmava com os olhos cheios de lágrimas que nunca mais duvidaria da palavra de seu filho, e o pai, passando a mão pelas costas de “Raspall”, dizia:
— Lhe faremos uma casinha no jardim com todo conforto, do que há de mais moderno. Sobre a porta pintaremos uma mensagem que dirá:
“Não é certeza que ele seja, mas merece ser.”
criado por boleiz
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