17/3/08
EDUCAÇÃO BILÍNGÜE - Finalizando…
Finalizando
A educação escolar é, sem dúvida, um instrumento institucional importantíssimo de socialização. Quando o educador ensina, transmite uma carga de valores morais e políticos; enfim, todo um universo de valores e padrões de uma sociedade, oferecendo ao educando o modelo em que se espera que ele se adapte e torne seu. Educação e socialização possuem muitas afinidades entre si, sendo que a matéria prima de uma e de outra fazem com que os organismos sociais se perpetuem; e essa matéria prima é a cultura.
Ao fundar o Colégio Amália Domingues Soller, o grupo de espanhóis que vive em São João, tinha o objetivo de difundir a Língua e a Cultura Espanholas como forma de legar, principalmente a seus descendentes, o acesso àquela cultura em que haviam sido, eles mesmos, socializados em seu país de origem.
O modelo bilíngüe e bi-cultural de educação que o Colégio oferece aos seus alunos, segundo pudemos perceber, proporciona a eles a capacidade de refletirem e abstraírem em ambos os idiomas, mergulhados em muitos aspectos da cultura espanhola, o que denota a apreensão da Língua Castelhana como uma Língua a mais “do” aluno. Mas pelo que observamos ao conversarmos com os professores das classes mais adiantadas do ensino no Colégio, vimos que eles compreendem essa apreensão com um caráter também muito particular. Parece, pelo argumento desses professores, que o fenômeno bilíngüe de fato, ocorre ao nível da compreensão e poder de reflexão, mas não ao nível da oralidade e da escrita, pois os alunos compreendem e refletem em Língua Espanhola, mas não falam nem escrevem com a mesma desenvoltura que em Português, quando o fazem em Castelhano.
O ambiente que o aluno encontra no Colégio caracteriza-se por uma comunidade educativa que consolida o seu modelo educativo, e “não podemos compreender a socialização escolar sem levar em conta os múltiplos processos interativos de socialização da própria comunidade educativa e suas conseqüências ao nível da socialização da criança” (MADEIRA - 1999)
Assim, o papel da herança cultural com que as crianças chegam ao Colégio, é crucial para um maior ou menor êxito escolar; de modo que os próprios pais percebendo isso, muitas vezes, quando não possuem a bagagem cultural compassada com os ideais bi-culturais da escola, começam buscar formas de aquisição dessa bagagem como garantia de poderem proporciona-la aos seus filhos - como no caso de pais que não são de origem hispânica e começam a estudar a Língua Espanhola para poderem interagir com seus filhos nesse idioma.
Nos ensina DURKHEIN (1978) que quanto mais rico em valores for o indivíduo, mais humanizado e mais civilizado será. Ele nos diz que ao introduzir-se os valores da sociedade na educação do indivíduo, proporciona-se-lhe condições de raciocinar sob esses valores, levando-o a se socializar. Essa ordem exterior introduzida no processo educativo do indivíduo interage com sua razão e o torna autônomo à medida que vai ocorrendo sua socialização.
Vemos no Amália Domingues Soller a introdução no processo de educação de inúmeros valores, tanto da sociedade brasileira como da espanhola, servindo como instrumentos de humanização no processo de socialização que ocorre naquela instituição educativa. Se os aspectos da cultura brasileira se destacam devido ao fato de o Colégio estar inserido dentro de um ambiente nitidamente brasileiro; os aspectos da cultura espanhola, por sua vez, aparecem com muita força, pois dentro daquela escola observa-se um ambiente diferente do externo - ainda que fortemente influenciado por ele. Um ambiente que vai-se construindo todo de maneira bi-cultural, objetivando transmitir uma bagagem cultural particular à sua clientela.
A experiência bilíngüe em termos de educação é muito pequena no Brasil.
Observamos que o Colégio vem encontrando um caminho muito bem adaptado aos objetivos de seus fundadores e às necessidades dos escolares no que diz respeito à inserção deles num mundo com essa natureza bilíngüe e bi-cultural; uma natureza criada de maneira artificial, porém cheia de significados que vão marcando e incorporando-se ao mundo das crianças - guardadas as observações das particularidades no que diz respeito ao fenômeno bilíngüe observado mais fortemente no “compreender” que no “comunicar-se”. Elas conseguem construir uma espécie de identidade bilíngüe muito particular e parecem estar encontrando êxito com relação a boa parte do objetivo de socialização do Colégio.
A pressão social que as crianças sofrem, ao esperar-se delas essa socialização específica num ambiente particular, parece humanizar-se através do contorno pedagógico que o Colégio vem oferecendo a seus alunos, numa cumplicidade muito positiva com suas famílias.
Finalmente, não podemos deixar de comentar que esta reflexão a respeito da socialização de crianças em fase de Educação Pré-Escolar em um meio bilíngüe e bi-cultural é ainda muito provisória e incipiente. Neste campo existem ainda muitos caminhos por percorrer, sendo este um estudo aberto a muitas pesquisas e muita energia investigativa.
Bibliografia
BERGER, Peter. (1980); “Socialização: como ser um membro da sociedade”, In: Sociologia e Sociedade (orgs. Foracchi & Martins), p. 205, Rio de Janeiro: Livros Técnicos e científicos Ed. S.A., 1980.
CONFORTIN, Helena, FERNANDEZ, Isabel Gretel Eres (1993); “O Ensino Bilíngüe - Uma Proposta Alternativa”. In Revista Perspectiva Erexim, S.C., Volume 17, pp. 93-100.
DURKHEIN, Emile: Educação e Sociologia, São Paulo: Melhoramentos, 1978.
FRIGOTTO, Gaudêncio: Educação, Crise do Trabalho Assalariado e do Desenvolvimento: Teorias em Conflito. Petrópolis: Vozes, 1998.
HORTON, Paul B.; HUNT, Chester. Sociologia. p. 72, Lisboa: McGraw-Hill, 1980.
MADEIRA, Helena M. P. (1999); “Sociabilização Escolar e o Indivíduo”. In O Professor (Revista de Educação). Lisboa, Editorial Caminho S. A., nº 63, III Série, Janeiro-fevereiro, pp. 53-58.
PINTO, Conceição A. "Sociologia da Educação", citada em A Sociabilização Escolar e o Indivíduo”. In O Professor (Revista de Educação). Lisboa, Editorial Caminho S. A., nº 63, III Série, Janeiro-fevereiro, pp. 53-58.
VILA, Inasi: El Cátala i el Castellà al Sistema Educatiu de Catalunya, Cap. 2, UAB: Barcelona, 1995.
ARNAU, Joaquim; COMET, Cinta; SERRA, J. M.; VILA, Inasi. "La Educación Bilíngüe". In: Cuadernos de Educación, Cap. 1-3, Barcelona: UAB, 1992.
VILA, Ignasi (2001): Seminário realizado pelo Colégio Amália Domingues Soller, no mês de Junho de 2001, coordenado pelo Professor Ignasi Vila, Diretor da Facultad de Ciéncies de lá Educació de lá Universitat de Girona.
BOLETIM DO COLÉGIO 2001 - editado pelo próprio Colégio Amália Domingues Soller.
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