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17/3/08

EDUCAÇÃO BILÍNGÜE - O papel da família…

HORTON & HUNT destacam que “o percurso de aprendizagem cultural é iniciado no seio familiar, uma vez que a personalidade e a cultura estão intimamente relacionadas através da forma como a herança biológica irá ser moldada pelo meio ambiente.” (1980)

Em busca de algum referencial familiar para a aprendizagem bilíngüe e bi-cultural das crianças observadas, resolvemos procurar alguma referência familiar para nossas observações.

Tivemos a oportunidade de nos entrevistar com algumas mães de crianças das classes de Educação Infantil e de primeiro ano do Ensino Fundamental, que estudaram no Colégio durante a fase de Educação Infantil. Ouvimos os relatos a respeito de como seus filhos passaram a utilizar em casa algumas frases em Língua Espanhola, que antes não usavam nem conheciam.

Algumas mães nos contaram que nos dias em que a aula de Espanhol é a última dentre as atividades das crianças, seus filhos vão para casa tentando conversar no carro nessa língua.

“ - Quando meu filho tem a última aula de Espanhol, ao entrar no carro para irmos embora, me diz assim: “Hola mamá”! e descamba a falar em Espanhol” - me contou uma das mães e outras que estavam por perto nesse momento me confirmaram que com elas ocorre a mesma coisa.

Algumas mães nos contaram que em casa seus filhos que estudam no Colégio, ensinam os irmãos mais novos a falarem Espanhol. Uma me contou e outras três que estavam juntas conversando, me confirmaram que em suas casas ocorria a mesma coisa.

Um pai de aluno, de origem uruguaia, me contou que em casa conversa com a família apenas em Português, mas depois que seu filho passou a estudar no Cervantes, começou a conversar com ele em Espanhol. O irmão mais novo, escutando as conversas em Língua Espanhola, começava a se interessar por aquele jeito novo de falar do irmão com o pai.

Algumas mães, entretanto, de famílias onde não se constata origem hispânica, nos disseram que pretendem começar a estudar Espanhol, pois não conseguem auxiliar os filhos na aprendizagem dessa nova língua. Duas mães nos relataram que já começaram o estudo de Língua Espanhola. Para as crianças dessas famílias, parece que a socialização se dá de maneira mais lenta, pois não encontram em casa a mesma herança cultural daqueles seus colegas descendentes de hispânicos. Mas alguns professores especialistas afirmam que essas crianças conseguem atingir os objetivos de aprendizagem da Língua Espanhola, e que algumas delas atingem níveis muito satisfatórios de conhecimento da língua.

Ainda com o pensamento no papel da participação da família na socialização escolar das crianças nesse mundo particular, pegamo-nos refletindo com Conceição Alves Pinto, que levanta a seguinte questão: “Até que ponto muitas das crianças nas nossas escolas dispõem de pontes entre seu mundo significativo (com que chegam à escola) e o universo significativo que lhes é imposto na socialização escolar?” (PINTO - 1995)

Resolvemos, então, mesmo que de uma forma pouco profunda, verificar momentos da participação da família no ambiente escolar, observando possíveis oportunidades que pudessem se mostrar como aquilo que a autora citada chama de “pontes” de passagem de um mundo significativo para o outro.

Participamos, então, de algumas atividades realizadas no Colégio, que não aquelas da educação formal; em que as famílias estão muito presentes. Estivemos em duas festas bem interessantes.

A primeira dessas festas, realizada pela Associação de Pais e Mestres, tinha como objetivo homenagear os novos alunos do Colégio. Uma festa muito rica em aspectos da cultura espanhola. Havia barracas vendendo “paella, tortillas, embutidos españoles, sardinas em la plancha”; juntamente com barracas vendendo o tradicional churrasquinho, pastéis e outras iguarias típicas das festas brasileiras. Houve apresentação de dança flamenca por grupos de alunos do Colégio e se escutava muitas pessoas - familiares de alunos e funcionários do Colégio - conversando em Castelhano.

A segunda festa, realizada pela direção de ensino do Colégio, foi a “Feria Del Libro”. Uma festa cultural muito interessante que contou com a presença de escritores conhecidos da literatura brasileira e também da literatura espanhola. Havia “stands” de venda de livros das principais editoras brasileiras, juntamente com outros de editoras especializadas em livros em Espanhol. Também nessa festa as comidas de origem espanhola bem como brasileira estavam presentes, além dos livros em Espanhol; num grande acervo de capital cultural a ser adquirido pelas famílias que se via comprando muitas obras literárias para seus filhos.

Pudemos perceber, a partir da observação desses eventos, que a socialização secundária - que ocorre na escola - encontra momentos de intersecção com as famílias, o principal instrumento da socialização primária das crianças.

Algumas anotações referentes ao ambiente bilíngüe

Conversando com alguns professores especialistas de Espanhol de classes mais adiantadas - mais especificamente das quintas e sétimas séries do ensino fundamental -, verificamos uma interpretação interessante do ambiente bilíngüe no Amália Domingues Soller.

“- Quando vim trabalhar neste Colégio, pensava que encontraria um ambiente amplamente bilíngüe, perfeitamente bilíngüe. Entrementes, a Língua Castelhana recebe tratamento diferente da Língua Portuguesa. A carga horária em que os alunos recebem aulas em Espanhol é muito menor que em Língua Portuguesa. Por isso, as crianças acabam por compreender praticamente tudo em Castelhano, mas demonstram dificuldade - mesmo em etapas mais avançadas da escolarização - para se comunicarem oralmente e por meio da escrita em Língua Espanhola” nos relatou um dos professores, originário de país hispano.

Conversando sobre essa peculiaridade do Colégio com o Professor Ignasi Vila durante o Seminário que ministrou no início do ano de 2001, escutamos dele a explicação de que um indivíduo que seja capaz de compreender perfeitamente um outro idioma que vem adquirindo num processo como o que descrevemos, pode ser considerado bilíngüe, uma vês que, em suas palavras, “não existem sujeitos cem por cento bilíngües”.

O ambiente peculiar do Colégio completa-se, ainda, com a execução diária dos hinos nacionais de Brasil e Espanha, além da comemoração dos feriados e festas de ambos os países - tais como as festas juninas brasileiras, e a festa da natividad hispana. Essa mistura cultural complementa o ambiente bilíngüe dando-lhe subsídios férteis para disseminação do ensino das duas línguas.

Esse ambiente bi-cultural é muito importante tanto para a construção da identidade hispano-brasileira dos alunos, quanto para a apreensão por parte dos educandos da língua Castelhana, pois, segundo CONFORTIN & FERNANDEZ “a cultura e a civilização são inseparáveis da língua”. (1993)

criado por boleiz    20:53 — Arquivado em: Sem categoria

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