11/6/08
Beleza - 1
Gabriel Perissé
Centro Universitário São Camilo
"O que, separadamente, nos horroriza,
é muito agradável quando visto no contexto
da totalidade."
Santo Agostinho
— Beleza! — exclamou o engraxate, sorrindo. Ele acabara de receber uma gorjeta do cliente generoso.
"Beleza" tornou-se hoje uma expressão brasileira popular que manifesta aprovação, verificação de que as coisas estão ocorrendo, enfim, como devem e deveriam sempre ocorrer.
Bela expressão também, porque igualmente exata, certeira, adequada e iluminadora foi sua escolha espontânea.
E contra a beleza não há argumentos.
A beleza é essa luz que jorra de e patenteia uma verdade verdadeira. Luz que nos dá lucidez, clarividência, visão clara e abrangente no claro-escuro e no fragmentário em que nos movemos, aos tropeços.
Assim como entender uma piada é um ato intelectual — e o riso é a aprovação de que a piada é boa, de que ela corresponde a um fato dissimulado pela "seriedade", pela minha auto-enganação, pelas formalidades e conveniências sociais —, usufruir da beleza (artística ou da natureza, ou mesmo industrial) é perceber uma realidade amorosa e inteligentemente organizada que se revela.
Rodin é taxativo: "Não há, na realidade, nem estilo belo, nem desenho belo, nem cor bela. Existe apenas uma única beleza, a beleza da verdade que se revela. Quando uma verdade, uma idéia profunda, ou um sentimento forte explode numa obra literária ou artística, é óbvio que o estilo, a cor e o desenho são excelentes. Mas eles só possuem essa qualidade pelo reflexo da verdade." (1)
A beleza é uma luz que emana da realidade e nos avisa: ultrapassamos (pelo menos por um momento) o contato banalizante e desumanizante com a vida. Mostra-se-nos que há, no núcleo da realidade, um ato de amor que põe as coisas no seu devido lugar — a gorjeta que surpreende, ultra-justiça, graça, gratuidade.
Essa auto-revelação da vida expande nossa sensibilidade, nossa inteligência, nossa capacidade de amar e de sofrer, de aprender (sabedoria) que também é uma grande lição não entender o mistério, não querer esgotar a inesgotabilidade da realidade. Não esgotá-la, mas por ela ser invadido.
No outro extremo, não enxergar a beleza é não ver o ser, é des-ver a visão.
Quando Michel Foucault dizia sentir uma incompatibilidade fundamental entre ele e a realidade, confidenciava também sua limitação estética, e filosófica, a despeito de sua respeitável erudição.
Quando Sartre, lembrando-se de que Flaubert pedira a Maupassant que se pusesse diante de uma árvore a fim de descrevê-la, considerava o tal conselho absurdo e dizia que Maupassant poderia, no máximo, tomar as medidas do objeto, dado que a árvore sempre lhe negaria o seu sentido, o seu ser — Sartre mostrava-se aqui menos artista do que de fato era. Menos vidente.
Num ensaio sobre Dante, porém, T.S. Eliot adverte: "No tempo em que as pessoas tinham visões…"
Os olhos, os ouvidos, a pele do artista são atingidos pela luz, a voz e o toque do ser. Clarice Lispector escrevia à flor da pele e, num dos seus livros, registra com especial clareza a epifania do ser. Sua personagem, Lóri, está à beira de uma piscina, e observa o que lhe rodeia. Subitamente, percebe. Vê as coisas sendo: "Eu estou sendo, dizia a árvore do jardim. Eu estou sendo, disse o garçom que se aproximou. Eu estou sendo, disse a água verde na piscina. Eu estou sendo, disse o mar azul do Mediterrâneo. Eu estou sendo, disse o mar verde e traiçoeiro. Eu estou sendo, disse a aranha e imobilizou a presa com o seu veneno. Eu estou sendo, disse uma criança que escorregava nos ladrilhos do chão e gritava assustada: mamãe! Eu estou sendo, disse a mãe que tinha um filho que escorregava nos ladrilhos que circundavam a piscina."(2)
Coincidentemente, Guimarães Rosa refere-se a um "quem" das coisas, a um "eu" submerso e sustentador das coisas. E um "eu" que ama, fala, organiza, que nos dá algo mais, que está sendo e está fazendo ser.
A experiência estética é perceber esta presença, este "alguém" misterioso, este acréscimo, este extravasamento, este acolhimento.
Certa vez, ouvi de uma moça: "Meu namorado é tão feio, mas tão feio, que chega a ser bonito". Porque o amor não é cego. O artista vê. Quando Picasso diz que o feio é belo, parece dizer que descobriu uma organização mais elevada, em que o desfigurado reencontra seu lugar no cosmos. O inferno dantesco é feio, mas é belo no contexto da Divina Comédia, essa comédia em que o riso amoroso de Deus concilia tudo e a tudo dá o seu destino e função: céu, purgatório e inferno.
Novamente Rodin: "Mesmo no sofrimento, mesmo na morte de entes queridos e até mesmo na traição de um amigo, o grande artista — e estou me referindo ao poeta, assim como ao pintor ou escultor — encontra a voluptuosidade trágica da admiração."(3)
O cosmos como um poema (épico e dramático e elegíaco e lírico e cômico e satírico) em que tudo tem lugar, em que o que separadamente horrorizava, repugnava, está agora contextualizado, entretecido, faz sentido, ilumina, é admirável — esta é uma idéia agostiniana: carmen universitatis.
O texto literário é um produto "têxtil", minuciosamente organizado, um microcosmos em que se articulam, se harmonizam e se complementam dados contraditórios, contrastantes, conflitantes. O contra e o pró. O artista trabalha no sentido de que a realidade total (e sua concomitante beleza) tenha oportunidade de surgir. E esse trabalho é o mais elevado dentre todos. O escritor, o artista é um combinador. A arte de combinar o céu e o inferno, e de fazer que vejamos entre eles um vínculo superior, inteligente — visão que nos torna lúcidos.
A beleza é a luz que se projeta quando se opera um contato orgânico, vivo, entre o eu e o outro, entre o homem e o mundo, entre o mundo e o divino. Quando se descobre a organização profunda, a união harmoniosa e equilibrada das diferenças, a união entre o sensível e o meta-sensível, o diálogo entre o certo e o errado, entre o amor e o ódio, entre o tudo e o nada: mostrando o sentido que há nisso tudo, o lugar que tudo isso ocupa na ordem geral do ser.
Splendor ordinis, antiga definição de beleza, é o brilho intenso que emana da ordem, ordem no sentido de um campo de harmonização das coisas contrárias. Ordem, etimologicamente, refere-se a urdir. Ordenar é urdir, tecer, tramar, entrelaçar, estruturar. A teia da aranha, bem ordenada, simétrica, inteligente, obediente e improvisadora, ordem frágil mas eficiente, é bem esse texto forte e delicado, belo e terrível, em que as realidades da vida e da morte se entrelaçam harmoniosamente. Aliás, a poeta norte-americana Emily Dickinson comparava a obra do artista com a teia da aranha. E o leitor, ao apreender a urdidura (e nela ser apreendido), vê a ordem implícita do real, na beleza.
Um poeta catalão, tecendo um poema sobre a teia de aranha, entrevê "a arte da aranha [que] urde com luz de seda", e, depois que a chuva e o sol incidem sobre a teia, como "cada gota nos fios encerra o mundo."(4)
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