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11/6/08

Beleza - II

Mas é preciso saber ver para ver o saber que há implícito, estruturante, doador de sentido, na realidade.

Por exemplo: um escritor fala de seus amigos, e escreve: "Sim, tive amigos que morreram e estão vivos, e outros que estão vivos e morreram". Brincando com as palavras, a aranha arma seu tecido, dispõe em forma de cruz (a imagem é a da letra grega X — khi, e daí a figura de estilo em questão chamada quiasmo, "cruzamento") o que tem a dizer (sua cruz, sua solidão), e diz uma total verdade, que provoca uma contagiante alegria cognoscitiva/emocional/amorosa.

"A ordem provém da vida e não a vida da ordem" (mais um quiasmo, esse de Saint-Éxupéry). A vida é a harmonização, aproveita a desorganização e lhe confere uma função até então desconhecida. O sofrimento torna-se sinal de amor. As chagas de Cristo foram incorporadas e transfiguradas pela ressurreição. Tornaram-se sinais de beleza e vitória. A cicatriz é a harmonização da dor. O Artista transformou a morte em vida, o demônio em colaborador, a cruz-tortura no símbolo da esperança. Cristo é essa aranha que reconstruiu a teia do universo esgarçada pelo pecado mortal contra a beleza. E que cicatrizou a ferida que o homem fez contra si mesmo quando arrancou-se (tão pouco habilidoso) do cosmos.

Outro exemplo. Um poema de Orides Fontela:

Adivinha(5)

O que é impalpável
mas
pesa

O que é sem rosto
mas
fere

O que é invisível
mas
dói.

A mão poética vai compondo o tecido para fazer eclodir o sentido das coisas: a lógica na ilogicidade, a dor, a ferida e o peso no invisível, no impalpável, no impessoal. O que é o que é? Quem ousa adivinhar? Quem ousa ser o homo divinus a quem os deuses concedem o dom de adivinhar, de perceber a ordem divina que coordena, que sintoniza, que harmoniza tudo?

Pois é vocação do homem adivinhar, entender tudo, toda a sinfonia, como um deus, à luz da beleza. E como dizia o poeta Caetano Veloso: "gente é pra brilhar, não pra morrer de fome".

Contudo, é também evidente que estamos famintos, sedentos, gagos, rotos, feridos. Feridos pela desumanização, pela mente obscurecida, pela velhice implacável, pela ação deformante das doenças, da mesquinharia, da insensibilidade, do mau gosto, que nos enfeiam. Estamos estilhaçados, truncados. Estamos cegos, coxos, surdos, amputados, mancos. À deriva. Não conseguimos ver o invisível, o ser. Embrutecemo-nos. Não temos discernimento. Fazemos o que já disseram de alguns jornalistas: que sabem distinguir o joio do trigo, e publicam o joio.

Sofremos muitas vezes da falta de experiência da beleza: apeirokalia, definia Aristóteles.

Uma pessoa que estivesse privada de ouvir boas piadas correria o risco de viver continuamente de mau humor. Uma pessoa que estivesse privada da visão, da experiência da beleza correria o risco de morrer como pessoa, de afundar-se na animalidade, numa visão apenas utilitarista das coisas.

Porque os animais são belos mas não são sensíveis à beleza. O gato ouve o pássaro cantar e sente prazer porque talvez possa comê-lo, só por isso, mas a pessoa humana ouve o pássaro pelo gosto de ouvir, de saber e reconhecer que é um pássaro, de compreender que está ali um verso (o gato é outro verso) do Poema cósmico.

A mão de Cristo-poeta, mão chagada e cicatrizada, é o símbolo da nova criação, do novo Poema, do novo ser humano, ferido e reintegrado. Cristo ensina o amor à beleza: filokalia.

Emerson, pensador norte-americano, dizia detestar apertar a mão de um homem por trás da qual não houvesse um homem inteiro. Apertos de mãos enganadores e decepcionantes. Porque, infelizmente, estamos destinados à perda da mão. Ou à deterioração, à corrupção, mesmo com as duas mãos. Mas também estamos destinados à integralidade. Queremos ser pessoas íntegras.

Uma pessoa mutilada está feia. Precisa ser reintegrada a si mesma e ao conjunto das coisas. Está malfeita. Ou desfeita. Tem um defeito. Uma pessoa sem a mão direita, por exemplo. Perdeu-a. Sente falta desse membro, e todos conhecem a sensação que o mutilado experimenta de sua mão (membro-fantasma é assim chamado) estar ali. Ele tenta coçá-la às vezes, mas nada encontra.

Belo é o formoso, isto é, o que tem forma. Falta beleza e firmeza ao deformado, falta-lhe o influxo total da causa organizante, do princípio do ser, da força vivificadora. Falta-lhe a paz, que vem da tranquilitas ordinis, a dinamicidade organizada, quando todas as partes de um todo consurgem, convergem ao mesmo tempo para uma mesma finalidade.

criado por boleiz    23:24 — Arquivado em: Educação, Pedagogia

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