Fórum Educação

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11/6/08

Beleza - III

O homem está mutilado. Está manco, está fraco, não consegue dominar as forças destruidoras que se desencadearam ao seu redor e dentro de si mesmo — a morte, o nauseante, o medo, a traição, o apodrecimento. Perdeu a mão criadora, o mais nobre de todos os membros — organum organorum, o órgão dos órgãos, que tudo organiza.

Então entra em cena o Artista. O "quem" das coisas, a Pessoa que fez tudo, o Logos formante, a mão criadora de Deus vem restituir o destituído, a aranha zelosa vem recosturar o tecido de todas as coisas. O Homem-Deus (Cristo crucificado/ressuscitado) é fons universae pulchritudinis, fonte da beleza de tudo, como diziam os antigos. E a multidão se aproxima dEle, trazendo consigo os erros da natureza: coxos, cegos, mudos, mancos, e os estendem a seus pés, e Ele os cura, restitui-lhes a integridade e a agilidade (cf. Mt 15, 30). E a multidão admira-se, vendo que os mudos voltam a falar, os coxos a andar, os cegos a ver e os mancos a ter mãos para trabalhar, dar carinho, escrever, esculpir, pintar, tocar instrumentos musicais (cf. Mt 15, 31).

O homem perdeu a mão, ou ela se atrofiou horrendamente, pois a utilizou mal, colheu com ela o fruto do orgulho, do isolamento, da auto-suficiência, quis roubar do jardim das delícias (das belezas) o que não era de sua exclusiva autoria. Em suma, deu uma "mancada". Mas o que a mão humana enfeou (enfeando-se), outra mão humano-divina veio embelezar: Pater diligit Filium et omnia dedit in manu eius (Jo 3, 35): o Pai deixou tudo nas mãos do seu amado Filho. E o Artista encarregou-se de restaurar a obra de arte.

Na realização incansável de sua tarefa artística, Cristo entrou numa sinagoga e viu um homem com a mão direita seca — arida (cf. Lc 6, 6). Teria sido este homem um escultor, um artesão, um lavrador? A mão encontra-se atrofiada, estéril, improdutiva. Cristo pede-lhe que ele a estenda, e a mão lhe é restituída.

A forma formante dá beleza ao que era asqueroso, ao que estava ferido — asco liga-se à escara, ferida escura, que causa nojo. A ferida, no entanto, é cicatrizada com perfeição.

A mão criadora recria a mão criatura. A propósito, handsome, em inglês, é hand + some = próprio de uma verdadeira mão, maneiro, vistoso (agradável à vista), bonito, elegante, nobre, generoso, magnânimo. A mão do artista cria o encantador, o airoso, o amável, o primoroso, o well-looking, o que é bom de ser visto, ouvido, tocado, lido, experimentado.

A nossa vocação para recriar o poema, o quadro, a melodia do mundo é vocação de criatividade metafísica. Boileau dizia que, graças ao poeta, o monstro odieux agrada nossos yeux. A rima harmoniza, é um milagre que podemos fazer, desentranhando um novo sentido, uma nova sonoridade da voz humana reduzida ao grito da dor, do ódio e do asco.

A filocália, a arte, a beleza combatem o tédio da vida, decorrência emocional da falta de compreensão do mundo. Ensinam-nos a ver, mais ainda: a desvelar e a contemplar. Outra vez, Rodin: "A Beleza está em toda parte. Não é ela que falta aos nossos olhos, mas nossos olhos que falham ao não percebê-la."(6)

Privar-nos da beleza é um enterrar-se vivo. É negar nossa própria capacidade de transcendência e de encontro com o Todo. John Keats, ampliando ao máximo a consciência estética, chega a equiparar cada vida humana a uma contínua alegoria ("e pouquíssimos olhos conseguem ver esse mistério", enfatiza), uma vida que é uma história simbólica, figurativa, cheia de alusões, profecias e mistérios, como a Sagrada Escritura.

Segundo o folclore judeu, Deus criou o homem para que este Lhe contasse belas histórias, fosse para Ele um romance, um filme, uma peça de teatro. Somos artistas que devem prolongar a beleza da vida. E quando falhamos, é Cristo-artifex, é a Palavra mesma quem vem "dar um jeito" na feiúra, na história mal contada. Vem reintegrá-la, transformando-a, vem trazer a paz da nova urdidura, tornar-se intérprete entre o humano e o divino.

Porque "intérprete" significa justamente isto: aquele que está entre as partes, para uni-las, fazer que se compreendam, que se ouçam e se vejam, que se abracem e se beijem, para sempre.

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1- Auguste Rodin. A arte. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pág. 73.

2- Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982, págs. 75-6.

3- Auguste Rodin. Idem, pág. 36.

4- Francesc Faus. A roda e o vento. São Paulo, Editora Giordano, 1995, págs. 12 e 14.

5- Teia. 2a ed., São Paulo, Geração Editorial, 1996, pág. 42.

6- Auguste Rodin. Idem, pág. 92.

FONTE: http://www.hottopos.com

criado por boleiz    23:23 — Arquivado em: Educação, Pedagogia

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