23/6/08
A Carta da Terra e a nova cultura da água - IV
Tantas idéias imperativas na construção de um outro mundo só podem se transformar em realidade numa sociedade mundial que se baseie na democracia, na não-violência e na paz. Por isso é preciso “fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões, e acesso à justiça.”
Não podemos deixar de “integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.”
Uma sociedade global democrática, preocupada com toda a comunidade de vida deve “tratar todos os seres vivos com respeito e consideração”, ao mesmo tempo que “promover uma cultura de respeito à diversidade, não-violência e paz.”.
Para todos nós, comprometidos com a construção de uma sociedade melhor, a formação de cidadãos planetários deve ser uma preocupação constante, meio que natural, em nosso dia-a-dia. Essa preocupação deve transcender a teoria e o discurso, materializando-se em todos os nossos afazeres cotidianos.
Historicamente o pensamento hegemônico doutrina os homens de modo a buscarem defender os bens da família e da pátria como virtude primordial no exercício da cidadania. Devemos propor à sociedade, a partir de nossa comunidade mais próxima, a Terra como pátria e a humanidade toda como grande família global com interesses em comum; distantes, mas igua lmente importantes, apesar das diferenças e peculiaridades de cada povo e cada comunidade. E quais são esses interesses da humanidade como um todo senão — pelo menos inicialmente — aqueles enunciados na Declaração Universal dos Direitos do Homem? De todos os homens?
Parece que se a vida passar a se pautar nesse interesse universal da humanidade, sem perder de vista o meio local onde os seres vivos estejam inseridos, já teremos iniciando um trabalho fundamentado
nos valores e princípios da Carta da Terra, comprometida com a esperança que tanto buscamos de um mundo melhor.
Mais que simplesmente pretender levantar questões sobre o grande tema da sustentabilidade, é necessário apresentar-se um caminho de reflexões que norteiem nossa prática.
Estamos dando início a um encontro que buscará discutir uma nova cultura da água na América Latina. Nosso continente, massacrado por séculos de exploração ambiental, advinda do modelo colonial europeu aqui instituído, emerge de maneira monumental, dos pampas argentinos ao planalto brasileiro, das ilhas maravilhosas do Caribe às altitudes estonteantes dos picos andinos, do legado das civilizações incaicas, astecas e maias aos vulcões ativos que enfeitam a pele enrugada de nossa latinidade! E tudo isso nadando em muita água! Flutuando sobre o Aqüífero Guarani, banhado pelo Prata, pelo Paraguay, pelo Titicaca, por toda a bacia do Amazonas, pelo velho Chico e pelas águas sazonais do Pantanal. Sem falar na força do Orinoco, do Lago de Nicarágua e da maravilha exuberante da Foz do Iguaçu.
Tanta água! E, ao mesmo tempo, tanto desprezo por ela. Tanta água! E, ao mesmo tempo, tanta poluição. Tanta água! E, ao mesmo tempo, tanta miséria, tanto sofrimento causado pela seca e pela injustiça na distribuição da renda e do acesso aos bens naturais!
A Carta da Terra, marco ético para a construção de um outro mundo, nos convida à refle tir nas palavras de Don Federico Mayor, quando nos diz, na página principal do site deste evento (Encuentro por la nueva cultura del agua):
“Saber para prever, prever para prevenir. La prevención es la mayor victoria. No generalizar los criterios ni las soluciones, que tienen que considerarse y aplicarse caso a caso. Discutir, debatir, en comisiones pluridisciplinares, las distintas cuestiones.Y, entonces, movilizarnos en favor del “oro líquido” del siglo XXI, al que todos los seres humanos tienen el derecho de acceso: el água”.
criado por boleiz
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