Quase nenhuma palavra…
Flávio Boleiz Júnior
Ecopedagogo
Na noite de ontem, dia 04 de julho, em assembléia na Praça da República, os professores da rede estadual de São Paulo resolveram encerrar uma greve que já durava 22 dias.
Para variar, a imprensa praticamente ignorou o movimento do docentes paulistas. Aliás, trocadilhos à parte, um dos poucos motivos que geraram algum comentário na imprensa foi o fato de que as manifestações dos professores paulistas ocorreram na Paulista — mais especificamente, no vão livre do MASP, deixando o trânsito já tão confuso da capital paulistana ainda mais louco.
Mas, afinal de contas, porque a imprensa haveria de dar alguma importância para o movimento dos professores da Rede Estadual Paulista de Educação? Afinal de contas, os filhos dos homens de negócio das classes hegemônicas não estudam em escolas públicas. Além disso, a educação desvalorizada, sucateada pelo governo estadual já há décadas, serve bem aos ideais neoliberais que norteiam os fazeres do governo paulista, com o pleno apoio das conservadoras idéias das classes formadoras de opinião do Estado de São Paulo: aos pobres nada além da inclusão no consumo (afinal de contas, se os pobres deixassem de consumir, doeria nos bolsos de muitos velhos homens brancos que mantém seus filhos nas escolas privadas de nosso país).
O movimento dos professores estaduais chamam a atenção por vários motivos. Alguns muito louváveis e outros nem tanto.
Dentre os motivos mais louváveis, estão a luta da categoria pelo reconhecimento de seu valor como intelectuais formadores das novas gerações, esperança de um melhor futuro para nossa nação e, em especial, para o nosso estado. Além disso, a luta visava à melhoria na qualidade de ensino, já que pleiteava, dentre outras reivindicações, a diminuição da quantidade de alunos por sala de aula que, em algumas escolas de São Paulo — como em muitas outras unidades de nossa federação brasileira — chega a mais de 40 alunos. Estas causas, por si só, já justificariam plenamente o movimento dos docentes paulistas.
Entretanto, a greve deste ano explicitou, ainda mais, a postura de desrespeito à participação plena dos alunos e seus familiares nas deliberações que dizem respeito à valorização do trabalho docente e à própria educação pública. Como tem ocorrido há décadas, no movimento docente por melhores condições de trabalho e de educação para os discentes, a participação dos alunos e seus familiares se reduziu a um “obrigatório” apoio às causas “comunicadas” pelos docentes que, apesar de muito justas, não foram democraticamente discutidas, explicadas, refletidas e construídas com ampla participação popular. Não. Para variar, uns poucos Conselhos Escolares mais bem organizados do que a grande maioria, tomaram parte em algumas discussões reduzidas e muito bem localizadas, enquanto que a absoluta maior parte dos pais apenas tomaram conhecimento da grave dos professores quando seus filhos começaram a voltar da escola, sem assistir aulas, porque seus mestres estavam em greve.
Em nossa sociedade é tarefa da escola ensinar democracia e cidadania às novas gerações. Mas não se ensina tais coisas sem se oferecer condições amplas de participação aos alunos nas decisões mais importantes a se tomar, dentre as quais, o passo-a-passo da luta reivindicatória dos professores por melhores condições profissionais e de ensino.
Um movimento reivindicatório de tal importância — melhores condições de ensino, portanto qualidade superior para a educação —, não tem como “decolar” sem a participação de todos os interessados nos possíveis frutos dessa luta. Uma manifestação que reúna algumas centenas de professores na Avenida Paulista consegue luz na imprensa apenas pelo caos que causa no trânsito da grande metrópole, ao passo que um movimento com a participação maciça de docentes, alunos e seus familiares representaria um verdadeiro movimento social.
A luta dos educadores em nosso país, assim como em qualquer parte do mundo, é sempre legítima e deveria merecer a primeira página dos principais jornais e revistas, uma vez que dizem respeito ao que tanto se valoriza nos palanques políticos e nos fóruns econômicos de que participam os donos da quase totalidade do capital mundial. Além disso, a própria população usuária do serviço público de educação sabe da importância de uma boa formação para as novas gerações, como garantia de construção de uma sociedade mais justa, igualitária e plena de oportunidades de melhor qualidade de vida. Entretanto as prioridades políticas e governamentais continuam focadas em fazeres clientelistas, voltadas antes para os interesses eleitoreiros da elite que para os quereres e necessidades das grandes camadas populares.
Os embates não terminaram com o fim da greve na noite de ontem. Eles mal e mal continuam, encobertos pela “tampa de panela de pressão” com que o governo acabou de encobrir o “cozido” produzido pelo permanente clima de tensão na luta entre si e o movimento reivindicatório educacional. A pressão permanece. A tensão entre opressores e oprimidos segue em frente. Os embates entre os interesses de classe prosseguem em nossos variados extratos sociais. A mídia, por sua parte, continua não publicando ou refletindo quase nenhuma palavra…