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21/9/08

Democracia (???) na escola

Enviei um texto do Leonardo Boff pras listas de que participo e, poucas horas depois, recebi do Semião, o artigo que segue, bem interessante!

Boa leitura!

 

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Democracia(???) na escola

 

António Semião de Utah

Parafraseando Leonardo Boff, Teólogo, em artigo que recebi por e-mail no dia de hoje, 21/09/2008, intitulado “Democracia na fábrica”…

 

A democracia entrou na escola.

Indubitavelmente a democracia é o melhor modelo de organização política que a humanidade já cogitou. No entanto, lá onde se introduziu no contexto de relações capitalistas de produção, vive em permanente crise. Por sua própria lógica interna, tais relações produzem desigualdades sociais e exclusões que corroem pela base a idéia mesma de democracia. Democracia que convive com hierarquias impostas e exploração do trabalho e da capacidade intelectual de outrem se transforma numa farsa e representa a negação da própria democracia. É notório que a democracia sempre parou na porta da escola. Lá dentro vigora, com elogiosas exceções, a ditadura dos dirigentes (nas escolas públicas), das mantenedoras (nas escolas particulares) e de seus diretores, meros prepostos de suas vontades tirânicas. Não obstante esta contradição, nunca cessa a vontade de fazer da “democracia, valor universal”, sonho imorredouro do notável teórico italiano, Norberto Bobbio, ou a “democracia sem fim” de Boaventura de Souza Santos, quiçá o melhor pensador político português, quer dizer, a democracia como projeto a ser realizado em todos os âmbitos da convivência humana e indefinidamente perfectível.

Em todas as partes, se procura romper o pensamento único e o modo único de produção capitalista, inventando formas participativas de produção do conhecimento e abrindo brechas novas pelas quais se possa concretizar o espírito democrático nas relações entre docentes e equipes de direção, entre os colegas docentes (entre si) e entre professores e estudantes.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir ao exercício de tentativa de implantação de um modo democrático de gestão escolar. As idéias de democracia, entretanto, não ultrapassavam os limites do gabinete da equipe de gestão. Tudo que se discutia permanecia somente na teoria. Nas discussões de gabinete, não se contava com a participação de representantes de todos os seguimentos de educadores* da escola. O plano era instaurar a democracia, mas “de cima para baixo”, sem participação direta nas decisões, de modo a se garantir o modelo burguês de governo (ou seria gestão?), em que uma elite de pensadores privilegiados comandaria “democraticamente” a maioria, composta pelas demais cabeças (talvez menos “pensantes”, mas, com certeza, não-privilegiadas). Pode parecer engraçado, surreal, mas o fato é que se pretendeu “obrigar” as pessoas a serem democráticas, instaurando-se a democracia de maneira ditatorial.

Os educadores têm resistido a esse descalabro. Encontram certa dificuldade para se organizar e se articular, já que nem mesmo sabem direito o que a “cúpula democrática” que os governa deseja deles. Além disso, nunca tendo vivido uma experiência democrática de verdade, não sabem muito bem o que desejam ou como deveria dar-se uma gestão desse tipo. Chegam a desejar uma equipe de gestão que lhes dê “colo” ou que lhes ensine a trabalhar em suas funções, como forma de garantir uma afinação entre o que “a escola” deseja (entenda-se, é claro, o que a equipe de gestão deseja) e o que os educadores podem-e-devem fazer.

Fazia gosto de ver o rosto dos educadores em certas ocasiões em que a equipe de gestão discursava defendendo tais idéias democráticas de gestão, dizendo que gostaria de ouvir a todos, de contar com a participação de todos! O desejo de democracia é claro e evidente por parte da maioria. Mas a prática que se consolidou foi a da gerência capitalista mesmo.

O mais triste nessa experiência, me parece, é o fato de que a equipe de gestores não percebe que age governando nos moldes neoliberais e antidemocráticos que emolduram a sociedade que dizem desejar modificar:
* hierarquia inflexível,
* ordens e orientações pedagógico-educacionais impostas aos educadores,
* orientação de “gurus” todo-poderosos que ditam o modo de funcionamento da instituição educacional com base num “bom-senso” pedagógico no mínimo duvidoso,
* decisões arbitrárias no que diz respeito às contratações e demissões de educadores,
* manutenção de um clima de medo entre os educadores da instituição como forma de dominação e controle,
* discurso “moderno”, dando a impressão da existência de bases progressistas de relações interpessoais, mas com cisões.

A equipe de gestão acredita que está conseguindo impor aos educadores o exercício de uma educação democrática. Nas aparências pode-se até enganar com o que se vê nessa escola. Como forma de resistência os professores assumiram uma prática tautológica de educação democrática — tanto os que militam em prol de uma educação pautada nas relações democráticas, como os que simplesmente não acreditam em democracia. “Democraticamente” vão enchendo as cabecinhas dos alunos de conteúdos a serem utilizados (um dia, quem sabe…), vão prescrevendo montes e mais montes de lições de casa para que os educandos, fora dos muros da instituição, continuem a se abastecer desses conteúdos. Elaboram projetos para despertar nos alunos o gosto pela leitura, por exemplo, mas não lhes deixa tempo para curtirem ler outros livros que não os apontados nas infindáveis lições de casa…

Do ponto de vista de sua práxis educativa, a democracia vai ficando para segundo plano. Travestido de moda democrática (a que nos referimos como “tautológica”), o processo educacional segue em frente, aparentando algo que, de fato, não é. Preparando “cidadãos” que dêem conta de manter a ordem mundial pautada no “ter-mais-importante-do-que-ser” e na exploração do outro como modo de produção material da vida.

Uma verdadeira pena! Após quarenta anos do lançamento da Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, se ainda estivesse entre nós, teria tanto para ver, julgar e agir em prol da transformação do mundo escolar ainda tão… como dizer?

Jesuíta!

 

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*Por “educadores” me refiro a todas as pessoas que trabalham na escola. Todas educam, já que a tarefa que cada uma desempenha se mostra aos alunos como modo de ensino na prática cotidiana.

criado por boleiz    22:11 — Arquivado em: Educação, Pedagogia

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