Fórum Educação

Este espaço virtual destina-se à divulgação, debates e muita reflexão em torno de temas ligados a Educação, Pedagogia e Ecopedagogia.

28/10/08

Ah Mathieu! (Carta à Rosa Maria Whitaker Sampaio)

Querida Rosa!

Como vai você? Já estou com saudade do papo bom e das idéias maravilhosas que você semeia em mim!

Hoje comecei a dar um módulo de cinco aulas de 3 horas cada, sobre desenvolvimento infantil e aprendizagem, para uma turma de pós-graduação em Educação Infantil. Todas as seis alunas são professoras de Educação Infantil. São seis moças que terminaram há pouco o curso de Pedagogia e trabalham em escolas de periferia, privadas, com "clientela" advinda da classe C "alta"!!! Gente que, com bastante sacrifício, consegue colocar os filhos em "escolinhas" (ou seriam meros depósitos de crianças?) que custam cerca de 250 reais por mês…

Uma de minhas alunas trabalha com crianças de 4 anos. Ela tem duas auxiliares e trabalha com 32 alunos na classe.

Perguntei a ela:

" - O que você quer que seus alunos tenham aprendido no final do ano?"

Ela respondeu:

" - Eu gostaria que eles aprendessem a não ter medo! A ser mais seguros!"

Pensando nas crianças de 4 anos com que ela trabalha, fiquei confuso. Como assim "não ter medo"? Medo do quê? De quem?

Ela explicou:

" - Sabe, professor, eu falo para eles que não precisam ter medo de errar. Mas eles são muito inseguros. Por exemplo, pegamos o livro didático e, num texto, peço para eles identificarem a palavra ‘SACI’. Aí eles vão passando o dedinho no texto. Encontram a palavra ‘SACI". Param com o dedinho ali,mas têm muito medo de dizer que acharam, que ali está a palavra ‘SACI", compreende?

Rosa! Quem será o monstro que inventou que as crianças têm que ser alfabetizadas, sentadinhas em carteiras escolares (32 alunos numa mesma sala), com apenas 4 anos de idade? E ainda por cima com "livro didático"!!!

Sugeri a ela que tentasse mudar um pouquinho o modo de trabalhar com as crianças… Sugeri que levasse as crianças pra um passeio na feira-livre do bairro (a uma quadra da escola) ou que passeassem pela praça enorme que fica a dois quarteirões… Colhesse os interesses das crianças, pedisse que "catassem" coisas no passeio e que depois partisse desses interesses para fazer um trabalho simples, mas significativo…

" - Não podemos, professor! Teríamos que pedir autorização aos pais e a escola não deixaria. A realidade aqui deste bairro é muito complicada. Tem muita violência!"

Elas têm que trabalhar o livro com os alunos… Têm que manter as crianças na sala de aula, sentadinhas, escrevendo e lendo… Decorando os numerais, ou melhor, os algarismos, de 1 a 10! Não percebem o que estão fazendo com as crianças, não vêem que as submetem a uma baita violência!!!

Sugeri que pensassem em modos criativos de trabalhar com as crianças na própria sala. Que tirassem as carteiras da sala, colocassem tapetes, montassem cantos com materiais diferentes. Que explorassem a arte e o artesanato: muito papel manilha ou pardo, pincel, guache, argila, papel machê; tabuinhas de cores e formatos diferentes, miolos dos rolos de papel higiênico, barbantes e lãs de cores diferentes; muito jornal, cola, retalhos de tecido… Vários cantos! Em UM deles, papel e lápis: lugar para se interessarem por escrever. E livros, muitos livros de literatura infantil adequados à idade das crianças para que elas pudessem manuseá-los, se interessar pelo que esses livros trazem, dizem por meio de suas gravuras e palavras…

" - Esse professor é louco!" - comentou uma das alunas, em meio a um riso que denotava um misto de nervoso e prazer, euforia e frustração!

Foi-me dando uma gastura…

Graças aos deuses acabou a aula e eu pude deixar uma pulga atrás da orelha de cada uma delas, mas também saí com um montão de pulgas atrás da minha orelha!

Voltei para casa pensando no Mathieu (Ah Freinet!). No que ele diria de tudo isso!

O Rubem Alves tem um texto, muito bacana, chamado "Um corpo com asas", em que ele compara a criança com uma lagarta que em sua metamorfose se transforma em linda borboleta, capaz de voar nos mais altos sonhos… Ele questiona o papel dos educadores diante dessas crianças, dizendo assim:

"Por vezes, entretanto, acontece uma metamorfose ao contrário: as borboletas voltam ao casulo e se transformam em lagartas. (…) E eu me pergunto sobre o que aconteceu conosco. Pois um dia fomos como Mariana, borboletas aladas, em busca de espaços sem limites. Talvez, por medo, tenhamos abandonado as asas. Talvez, por medo, já não sejamos capazes de voar e sonhar. Gordas lagartas, que não têm coragem de se desprender das seguras folhas onde rastejam…"

Agora, aqui escrevendo e contando minha experiência para você, tenho a sensação de que minhas asas querem, imploram por voar. Mas voar é tão perigoso…

Grande beijo no seu coração!

 

Flávio

criado por boleiz    23:05 — Arquivado em: Ecopedagogia, Educação, Pedagogia

2 Comentários »

  1. Comentário por Declev — 29 de outubro de 2008 @ 0:11

    Flávio, bom relato.
    Te convido a passear e discutirmos algo lá no Diário. Abraços.

  2. Comentário por Carmem Fatima — 29 de outubro de 2008 @ 9:58

    Olá, flávio! Gostei muito do relato. Tem uma amiga minha que da aula para crianças de 4 anos e comentou:

    A coordenadora pede para evitar musíca para não ter barulho.
    Tudo tão perto…………ai Meu Deus, e Deusas

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