Fórum Educação

Este espaço virtual destina-se à divulgação, debates e muita reflexão em torno de temas ligados a Educação, Pedagogia e Ecopedagogia.

31/1/09

Belém - 29/01/2009 (FSM)

     “Um outro mundo é possível se a gente quiser!”

 

     O dia 29 foi muito interessante, aqui em Belém. Logo pela manhã a cidade já estava agitada pela ação de uma série de grupos que se manifestavam, em diferentes lugares, militando em causas que iam desde os direitos dos homossexuais até questões relativas ao direito à moradia, às questões fundiárias e ao direito à educação.

     A Praça da República, por exemplo, estava repleta de militantes da CUT, bradando contra a onda de demissões que assola o país, em função da crise econômica mundial. Em outro ponto, ali perto, se escutava os microfones de outros cidadãos sociais mundiais se manifestando por alguma causa que não se conseguia discernir, devido às distorções do som causadas pela distância a que se localizavam de nós.

     O povo belenense começou a perceber o tamanho das mudanças ocorridas na cidade durante estes dias em função do Fórum. Até agora parece que estavam alheios: sabiam que ocorreria “um Fórum”, mas não tinham noção da quantidade de pessoas que viriam participar nem do teor ou teores que abordados, do perfil dos participantes ou das possíveis conseqüências que tal evento traria para suas vidas. Comum escutar, de motoristas de taxi, cobradores de ônibus, garçons etc, a seguinte indagação: “ — Que resultados esse fórum pode trazer aqui pra Belém?” ou “ — Mas esse fórum mundial modifica alguma coisa no mundo?”

     A cidade de Belém conta com uma população aproximada de 1.600.000 habitantes, a grande maioria composta por pessoas pobres, com mínimo acesso aos direitos fundamentais, quando não totalmente desprovidas de tal acesso. Enquanto que no centro da cidade e seus arredores mais próximos encontram-se praças bonitas, arborizadas e enfeitadas de flores coloridas (é impressionante a quantidade de ecsórias floridas que se vê por aqui), na periferia a situação é muito diferente. A UFRA fica localizada nas proximidades de um bairro chamado “Terra Firme” – nome que bem contraditório para um lugar onde grande parte das casas equilibram-se sobre palafitas e pairam sobre águas mal-cheirosas, poluídas pelos esgotos domésticos dos próprios moradores que não contam com o acesso ao saneamento básico que, apesar de ser “básico”, como o próprio nome já diz, não está disponível por ali.

     Ir à UFRA de ônibus — que é nosso transporte aqui em Belém durante o Fórum — nos obriga a passarmos de um extremo ao outro das condições sociais da cidade: saímos diariamente do centro bonito e rico e nos dirigimos à periferia feia, suja e pobre.

     Diante do portão da UFRA, que fica na Avenida Perimetral — que mais parece um trecho de rodovia vicinal — moram milhares de famílias pobres. No primeiro dia de Fórum, nesse local, encontramos apenas três ou quatro ambulantes vendendo água e refrigerantes, óculos escuros e camisetas. Hoje tornou-se impossível contar a quantidade de adultos e crianças que se puseram a tentar vender coisas – as mais variáveis bugigangas – na portaria de entrada do Território do Fórum. “ — Olha a água, é um real!”, gritam muitos vendedores tentando chamar a atenção de um povo escaldado pelo sol do Pará. “ — Refrigerante é dois real!” gritam outros com as mesmas expectativas. Dezenas de barracas de artesanato de tudo quanto é tipo, muitos outros concorrentes na venda de óculos escuros, barracas de sanduíches, de maniçoba e tacacá, de churrasco, de “hot” — que é como chamam o cachorro quente por aqui. Mas é tanto vendedor que fica até difícil de passar até chegar ao portão da UFRA! O número de curiosos admirando aquele inusitado movimento ali na porta de suas casas também é muito grande, ao mesmo tempo em que a cara de “vontade de participar” se mostra estampada nos rostos de centenas de adolescentes pobres que moram ali ao redor da universidade e que escutam as músicas dos shows que ocorrem no palco cultural e o murmurinho daquela juventude toda que se hospedou no Acampamento Intercontinental da Juventude. São jovens do mundo real sem dinheiro para pagar a inscrição e participar o movimento que diz desejar construir um outro mundo possível para eles mesmos! Quando saio da UFRA, ao fim de minhas atividades diárias, e vejo moços e moças do lado de fora olhando ansiosos, com vontade de entrar, fico pensando em dar meu crachá (“chiquemente” nomeado aqui de “credencial”) para que algum desses jovens possa ter acesso ao ignóbil mundo que se instalou ali, a poucos metros de suas casas, mas que lhes é inacessível!

     Pois bem, hoje me precavi em relação à longa caminhada sob o sol. Resolvi me locomover pelo campus da UFRA por meio de uma “bike express”. Vários moradores da cidade, desempregados, resolveram implementar, dentro do campus, uma espécie de taxi, operado por bicicletas. Idéia brilhante para aquela situação. Não polui, desloca-se rapidamente e garante uma graninha extra para os desempregados. A “corrida” custa 3 reais até o Bloco Central ou 5 reais até o porto. O grupo de ciclistas que resolveu oferecer esse serviço é formado por vários desempregados que se reuniram, se organizaram de improviso, e negociaram com a Organização do Fórum.

     Já na área onde participaríamos das atividades do dia, aproveitamos para escutar um pouco do relato de um participante africano (de Gana) que contava acerca dos problemas que têm se desencadeado em sua região, em função de conflitos étnicos. Ele contou que milhares de compatriotas morreram no ano de 2008 em função de ódio entre etnias que, historicamente, passaram por períodos de paz e conflito. Explicou que os problemas atuais são fomentados pelo desemprego e pela fome que campeiam na região e que a divisão política de seu país é fruto de um traçado geográfico imposto pelo colonizador, que não levou em conta as diferenças étnico-culturais.

     Depois do almoço, novo deslocamento na Universidade. Chegara o momento de nossa mesa acerca da Carta da Terra, intitulada “Carta da Terra, Educação e crise do capitalismo mundial”, que ocorreria no Bloco Central, sala A009. Ali chegamos e logo nos encontramos com alguns amigos, militantes da Carta da Terra, que vieram integrar nosso grupo de diálogo. A idéia era realizarmos uma “conferência ao contrário”, quer dizer, ao invés de darmos a palavra aos componentes da mesa para que falassem por 20 ou 30 minutos cada um, de modo que depois se abrisse para um debate com os participantes, apresentaríamos os participantes informalmente e franquearíamos a palavra aos participantes para que debatessem, de chofre, com os “mesários.

     Poucos gatos pingados apareceram para nossa atividade. Além disso, ocorreu uma feliz coincidência. Na sala que ficava bem de frente para a nossa, estava um pessoal de uma ONG que trabalha com a implementação da Agenda 21 escolar no município de Barueri — região da Grande São Paulo – e no município de Itu — no interior do Estado. Eram Tânia, Adalberto e Marlene, da Movieco (Movimento Ecológico). Eles apresentariam seu trabalho no mesmo horário do nosso e também estavam recebendo uns poucos participantes. Papeamos um pouco e descobrimos que trabalhávamos com os mesmos ideais, já que na implementação do trabalho com a Agenda 21, eles utilizam amplamente a Carta da Terra. E mais: trouxeram um material pedagógico contendo uma versão da Carta da Terra para Crianças elaborada pelo Guillem Ramis (do projeto Vivim Plegats de Malhorca), cuja tradução para a Língua Portuguesa havia sido feita por mim! Incrível como o Fórum é mesmo um lugar de encontros!!!

     Resultado: resolvemos unir as atividades. Eles apresentaram o trabalho deles e em seguida passamos a um debate sobre a situação ecológica e econômica de nosso país e sobre a noção de Ecopedagogia — a Pedagogia afinada aos valores da Carta da Terra. Participaram desse debate, ao fim das contas, cerca de 35 pessoas de diferentes regiões do Brasil (havia também dois estrangeiros, mas não identifiquei a origem, senão o idioma que era o Castelhano). Estavam conosco o Flander (que trabalha com Economia Solidária em Uberlândia — MG e utiliza a Carta da Terra), a Fabíola (que é professora de Educação Física na Rede Municipal de São Paulo e que utiliza os princípios da Carta em sua atuação docente e pessoal) e a Levana (que trabalha com iniciativas ecológicas junto a jovens na Califórnia e está montando um sítio na internet sobre “ecopedagogy” — o sítio é, por enquanto, somente em inglês).

      Durante os trabalhos, um dos participantes, morador de Belém, nos contou que o governo está implantando uma usina termoelétrica nas cercanias da cidade. Ele apresentou uma denúncia muito séria, precedida de uma explicação: o assai é uma cultura regional muito importante para a sobrevivência de milhares de famílias que vivem de sua extração e beneficiamento. Trata-se de uma fruta originária de uma palmeira e, atualmente, é consumida em todo o Brasil e exportada para vários países. Algumas associações de extrativistas do assai estão pleiteando uma certificação para suas frutas que ateste sua procedência orgânica, livre da adição de implementos. Entretanto, com a construção de tal termoelétrica, a emissão de carbono será de tal magnitude que a incorporação desse produto na composição das frutas implicará numa modificação em sua estrutura natural, impossibilitando tal certificação e desvalorizando a produção. Segundo esse participante, não se está levando em consideração os interesses das populações nativas da região assim como suas necessidades de subsistência ao se projetar tal tipo de usina geradora de energia (diga-se de passagem, numa região em que o Sol é uma constante e os recursos hídricos uma realidade evidente).

     Finda nossa atividade, muito contentes com os resultados, voltamos para o hotel: hora de banho, jantar e descanso!

     Detalhe: a Fabi tem feito um comentário interessante, que constato como realidade! Apesar de passarmos MUITO calor quando estamos na rua ou nos ônibus, ou mesmo trabalhando em certas atividades do Fórum, passamos, também, MUITO frio em Belém! O pessoal liga o ar condicionado no máximo e a gente fica arrepiado e gelado!!!

     No próximo post, seguirá o relato de nosso último dia de fórum, já que retornaremos a São Paulo às 3h da madruga do dia 31.

 

 

 

 

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29/1/09

BELÉM - 28/01/2009 (FSM)

"Um outro mundo é possível, urgente, necessário e desejado se a gente quiser!"

  

     Me desculpem por não ter mandado este post ontem. Eu cheguei muito tarde e cansado no hotel e não tive pique pra sentar na frente do computador!

 

     Mas vamos lá! Ao dia de ontem em Bélem!!!

 

     Pessoal, ontem foi um dia de muita paciência!

 

     Saímos cedo do hotel. Pegamos o ônibus e partimos para a UFPA. O trânsito corria "na buena", até o ônibus chegar à Avenida Perimetral, nas cercanias da UFRA. Mamma mia… ali a coisa “pegou”. O trânsito simplesmente parou! Ficamos quase uma hora entre parados e movendo-nos poucos metros até chegarmos à UFPA. Era MUITA gente indo pras atividades que ocorreriam ali.

 

     Nós, debaixo de um calor ferrado, chegamos ao Território do Fórum. Cerca de 32 graus no ônibus semi-parado!!! Mas chegamos!!!

     A entrada da UFPA já impressiona pela sua beleza. Árvores frondosas e avenida larga na entrada, ladeada por prédios modernos. Uma universidade muito bonita e requintada!

 

     Do lado esquerdo, de cara, o prédio em que estava ocorrendo o credenciamento da imprensa. Em seguida o espaço dos "stands" de diferentes expositores, com dezenas de produtos diferentes: livros, revistas, camisetas, CD’s, DVD’s, brinquedos, doces, roupas em geral, mais e mais livros… Tudo ainda em arrumação, mas já transbordando um afã muito legal, muito contagiante!

 

     Um pouco mais adiante, deparamo-nos com a primeira atividade de que participamos no dia: um ritual do fogo, realizado por diferentes indígenas, prenunciava um dia de muitas novidades e muitas experiências diferentes.

 

     Findo o ritual do fogo, tínhamos que ir para a UFRA. Ficamos sabendo que havia barcos que faziam o traslado dos "foristas" de uma universidade para a outra. Não pensamos duas vezes. Fomos pro porto da UFPA pegar o barco pra UFRA.

 

     O trajeto do barco é curto, mas maravilhoso. Cerca de 20 minutos de trajeto, em pleno Rio Guamá num trecho muito largo (com cerca de uns 2 ou 3 quilômetros de largura) com águas limpas, porém cor de barro. às margens, mata amazônica fechada até com alguns animais perto da borda do rio.

 

     Chegando no porto da UFRA, monte de jovens nadando no rio, aproveitando as águas trepidas de baixo de um sol escaldante. Dava até inveja!!!

 

     Saltamos do barco e pusemo-nos a caminho da portaria da UFRA, em busca de uma das tendas temáticas onde participaríamos de uma atividade com o pessoal do Maranhão, contra as manobras da família Sarney (que vem tentando derrubar o governador legitimamente eleito naquele Estado, para, num golpe, voltar ao poder). Caminhamos e caminhamos… 20 minutos de caminhada e chegamos à Tenda "Irmã Doroti" de Direitos Humanos. Pensam que chegamos? Que nada! A UFRA - nós não imaginávamos - é ENORME. Caminhamos mais 40 minutos, debaixo de um tremendo sol!!! Fiquei até com medo de pegarmos uma insolação! Mas finalmente chegamos. Estouraram até bolhas nos pés da Fabi… coisa braba mesmo!!!

 

     Depois de escutarmos alguns relatos iniciou-se o debate que culminou num manifesto de repúdio à família Sarney e apoio ao movimento "Balaiada" de resistência nas terras de São Luís.

 

     Depois da atividade, saímos para o Mercado "Ver-o-peso", para uma apresentação cultural. No caminho aproveitamos para almoçar no restaurante das Docas. Comemos à beira do Rio (novamente o Rio Guamá). Em seguida seguimos à pé até o Mercado e participamos de uma atividade cultural, que culminou com uma apresentação de carimbó e siriá. De noite fomos a uma reunião para preparação de nossa atividade para o dia seguinte. Voltamos tarde e exaustos!

 

     Nas ruas, centenas e centenas de pessoas com sacolinha do Fórum, facilmente reconhecidas por sua alça verde. Nos bares vemos algo maravilhoso: diferentes línguas se comunicando com facilidade! Todos fazendo grande esforço para se entender: muita mímica e muitos sorrisos. Abraços entre pessoas tão diferentes nos fazem arrepiar de emoção!

 

     Bom… assim se foi o dia! Cheio de muitas atividades cansativas, mas maravilhosas!

 

     No próximo post enviarei novas notícias!

 

 

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27/1/09

Novidades de Belém - 27/01/2009 (FSM)

"Um outro mundo é possível, urgente e necessário, se a gente quiser!"

 

     Hoje teve início, oficialmente, o Fórum Social Mundial 2009.

 

     Pela manhã fomos - eu e minha esposa - para a UFRA. Continuamos trabalhando no credenciamento e foi uma loucura!!!

 

     Mas tinha tanta gente que o pessoal encarregado de matar as bolsas com as credenciais e o jornal de programação do Fórum não davam conta da montagem. Vira e mexe tínhamos que parar e dar uma força para eles, para que houvesse bolsas para todo mundo! Só foi possível ter uma dimensão da quantidade de gente presente no Fórum durante a Marcha de abertura, de que falarei logo abaixo!

 

     Por volta das 11h, cerca de 1200 pessoas se reuniram para formar uma Faixa Humana em favor da Amazônia. Foi um sucesso! (pode ser vista no post abaixo, anterior a este ).

 

     Depois do almoço, pausinha para uma ducha rápida (33 graus de temperatura!) e concentração para a Marcha. Combinei com Kathy e Patrick (dois amigos ligados à Carta da Terra - Kathy dos Estados Unidos e Patrik da França) de nos encontrarmos na Praça da República para esperarmos pela Marcha e seguirmos juntos. Entretanto, por volta das 16h, quando a marcha foi chegando na Praça da República, começou a cair um baita temporal! Mas choveu forte mesmo! Eu e a Fabi corremos pro saguão de nosso hotel (que fica na frente da Praça) e nos abrigamos. Debaixo daquele toró, a Marcha seguiu e passou em frente ao nosso hotel. As pessoas seguiam encharcadas, escorrendo mesmo, mas animadíssimas! Brincando, dançando, pulando com muita alegria. Milhares de jovens bradando gritos de guerra e anunciando o outro mundo possível.

 

     No saguão do hotel encontrei o pessoal do Instituto Paulo Freire. Todos aguardando que amainasse a chuva. Ficamos olhando pelas janelas a Marcha passar cantando e bradando coisas de amor.

 

     O pessoal foi passando e a chuva acabando. Assim que o toró virou um pequenino chuvisquinho, saímos e passamos a acompanhar a marcha.

 

     Tinha gente com roupas diferentes! Cores e estilos de todos os tipos. É impressionante a gente ver como o Fórum Social Mundial consegue reunir a diversidade humana em prol de um objetivo comum!!! Eram milhares de crianças, jovens, idosos, religiosos, ateus, negros, orientais, brancos, mulheres, homossexuais, indígenas, portadores de necessidades especiais etc. Gente caminhando o mesmo caminho, indo ao mesmo lugar, buscando alternativas para mudar o mundo. Gente, é coisa de arrepiar! Cerca de 60.000 pessoas caminhando pelas ruas de Belém, do Cais do Porto até o Mercado São Braz. A Marcha durou cerca de 5 horas e terminou com uma série de apresentações culturais.

 

     O trânsito de Belém virou um caos. Parecia que eu estava de volta a São Paulo! Não congestionou: parou mesmo!

 

     Na volta para os apojamentos, muita gente resolveu seguir à pé por conta dos ônibus lotadíssimo que saiam da concentração de pessoas. Eu e a Fabi seguimos à pé por vários quilômetros. Pelo caminho escutamos comentários acerca da grande quantidade de pessoas andando pelas ruas da cidade. Os moradores de Belém não tinham noção da quantidade de pessoas que viriam para o Fórum. Nos restaurantes, acabam refrigerantes e os cozinheiros têm que correr para repor comida e poder atender a todos. Em todos os lugares em que vamos, há pessoas com as sacolas do Fórum: "gente com cara de forasteiro e de gringo" comentam os belenenses com ar de admiração!

 

     Amanhã seguiremos com as atividades autogestionadas. São cerca de 2.800 atividades diferentes que ocorrerão até domingo.

 

     Agora estou de volta ao hotel, escrevendo este relato, morrendo de cansaço… se ontem eu estava só o pó, hoje estou só o pó e sem pernas! Amanhã mandarei mais notícias de Belém!

 

 

criado por boleiz    21:34 — Arquivado em: Ecopedagogia, Educação, Pedagogia

Faixa Humana no Fórum Social Mundial 2009

criado por boleiz    20:58 — Arquivado em: Ecopedagogia, Educação, Pedagogia

Hoje em Belém - 26/01/2009 (FSM)

 

"Um outro mundo é possível, e urgente, se a gente quiser!"

      Hoje Belém parece outra cidade.

    

     Pelas ruas a gente vê tanta gente "diferente", gente alegre e sorridente, gente com andar a passos confiantes, envoltos, todos, numa "aura" diferente, de esperança e certeza de que é possível fazer coisas diferentes e viver em função de valores solidários, humanos e de muita paz… - nem que para tanto seja preciso fazer revolução!

 

     Hoje teve início o Fórum Mundial de Educação - que há anos vem ocorrendo antes, mas coladinho no Fórum Social Mundial!

 

     Na conferência de Abertura, Leonardo Boff deu uma lição muito bacana acerca da cidadania planetária que vem nascendo com o paradigma emergente das idéias do Fórum, da Carta da Terra e de outras iniciativas reais de reformulação social.

 

     Logo depois de Leonardo Boff, foi a vez da Senadora Marina Silva arrancar muitos aplausos de satisfação da platéia de mais de 8.000 pessoas, ao falar da necessidade de transgressão na educação para que uma outra escola seja possível! Ela falou com emoção e lógica, numa conferência inesquecível.

 

    Passo a vocês apenas um resuminho das falas de Leonard Boff e Marina Silva:

 

LEONARDO: Para construir-se um outro mundo é preciso que nossas relações - em casa, na escola, no trabalho, no mundo como o todo - siga 5 princípios:

 

     1º - a sustentabilidade, não o desenvolvimento sustável proposto e imposto pelo império e pelo mercado tentando se acomodar às idéias do paradigma emergente. Uma sustentabilidade da vida, de toda a comunidade de vida, envolvendo os vegetais, animais, o homem e as outras formas de vida que, talvez, nem conheçamos.

     2º - o cuidado, aquele que gera uma prudência capaz de prevenir os estragos futuros, o cuidado que transforma a ciência, que a faz uma ciência com consciência.

     3º - o respeito, que te leva a ser com o outro: não pelo outro ou para o outro, mas com o outro. Tal postura requer o reconhecimento da identidade do outro, de suas diferenças e de sua importância.

     4º - a responsabilidade - para com tudo e todos. Aquela que te faz saber as conseqüências de suas ações.

     5º - a solidariedade: ou nos salvamos todos, ou perecemos todos. Juntos.

 

     Para tanto, Boff explicou que são necessárias 4 virtudes imperativas:

 

     1ª - A hospitalidade de todos por todos, porque todos têm o direito de viver, conviver, estar, morar no mesmo lar, a Terra.

     2ª - A convivência na diversidade. Podemos ser humanos de muitas formas diferentes e viver e aprender nessas e com essas diferenças. Sem deixar que a diferença decai para a desigualdade.

     3ª - A tolerância (?!?!?!) - porque quando falta tolerância aparece o fundamentalismo e o terrorismo, que nos torna inumanos.

    4ª - A comensalidade: sentar juntos à mesa e desfrutar da generosidade da Terra.Todos juntos à mesa, desfrutando do direito de comermos, todos, juntos na grande ceia. Todos devem ter o direito a, pelo menos, 3 refeições por dia!

 

     Boff disse que o cenário de hoje não é de tragédia, mas de crise. Precisamos aprender a viver mais com menos. Mais vida e menos consumo, menos devastação, menos diferenças. É preciso aprender a viver a compaixão ensinada pela tradição budista, que significa: caminhar com o outro. O homem foi criado para brilhar e não para passar fome.

 

     Por fim Boff fez um comentário FANTÁSTICO. Ele disse mais ou menos o seguinte:

 

     "Estou muito honrado por estar nesta mesa ao lado da querida amiga Marina Silva. Essa mulher, com toda sua sabedoria, lealdade a seus princípios, seriedade e amorosidade, deveria ser a governadora do mundo. Como não é possível haver uma governadora do mundo, me contento em tê-la como governadora de nosso país."

 

MARINA: É preciso mudar muitas coisas, dentre as quais alguns princípios que sustentam o modo de ser da sociedade atual. Mudar um princípio é, muitas vezes, fazer apenas um pequeno desvio (que no horizonte direcionar-se-á par um lugar muito diferente). Precisamos mudar o modo de nossa relação com a natureza, com a Terra. A Amazônia produz 20 milhões de toneladas de água por dia. Acabemos com a tecnologia que produz toda essa água - que são 80% de toda a água doce que abastece os oceanos -  e acabaremos até com os próprios oceanos.

 

     A crise econômica que se abate sobre o mundo hoje é muito séria. Entretanto a crise ambiental é muito mais séria que a crise econômica. É preciso lidar com uma e outra para que haja esperança de um outro mundo. É preciso subverter a lógica da ética do mercado: seremos mais felizes se formos mais e não se tivermos mais.

 

     Ter interesses é legítimo. É o desejo que move o homem em busca de suas superações. O que não é legítimo é a imposição de uns interesses sobre outros.

 

     Precisamos provocar uma desadaptação, pois estamos adaptados ao mundo regido pela lógica de mercado.

 

     Temos que inventar um novo processo educativo que não seja repetitivo, mas que se caracterize por uma educação criativa, viva. Que não ensine os jovens a serem pragmáticos. O pragmatismo mata a juventude. Saiamos do pragmatismo para uma sociedade de co-responsabilidade, com respeito pela diferença, pelas diferentes gerações.

 

     Depois dessa mesa, tive o privilégio de acompanhar o Leonardo Boff até o hotel em que estava hospedado com sua mulher, para buscar sua bagagem e transferi-lo para outro hotel. Fiquei impressionado com a simplicidade do hotel em que aquele homem estava hospedado, por conta do "pessoal da Teologia da Libertação". Um lugar digno, mas extremamente simples, num bairro popular de Belém. A cada dia me impressiono mais e mais com a coerência entre o discurso e as atitudes desse homem!

 

     Bom… finalmente me dirigi com minha esposa para a UFRA, onde fomos trabalhar (dar uma forcinha) no credenciamento e inscrição do Fórum Social Mundial. Trabalhamos muito. Creio que passaram pelo credenciamento, só hoje, umas 20.000 pessoas de diferentes lugares do Brasil e do mundo. Havia indígenas de tudo quanto era país da América Latina. Gente alegre e muito animada de diferentes países, principalmente da América e da Europa - mas também de África e Ásia.

 

     Finalmente voltamos para o hotel. Exaustos. Com bolhas nos pés! Mas muito satisfeitos pelo trabalho realizado hoje!

 

     Agora, pessoal… vou tomar uma CERPA (a deliciosa cerveja do Pará) e dormir!!! O sono "dos justos"! he he he Tô que “só o pó”!

criado por boleiz    20:52 — Arquivado em: Ecopedagogia, Educação, Pedagogia

Direto de Belém - 25/01/2009 (FSM)

 

"Um outro mundo é possível se a gente quiser!"

 

     Hoje, durante todo o dia, aqui em Belém, comecei a ver muita gente para lá e para cá, passeando, conhecendo esta deliciosa cidade e se misturando em diferentes línguas, roupas e calçados "sociais mundiais"!

 

     Vi um grupo de franceses conversando muito animados, ao lado do Forte do Presépio, todos comendo banana, com cara de satisfação… Aquela gente branquíssima faz a gente perceber que o povo brasileiro NÃO é branco: é MESTIÇO mesmo!!! Essa gente branca, de uma brancura linda, mas muito desbotada, já estava realizando o sonho do outro mundo, proposto pelo Fórum que ainda nem começou!

 

    Vi gente vestida de turista. tipo, bermuda, camisa florida e chinelos havaianas, gente com cara de gringo, câmara fotográfica nas mãos e indisfarçável sorriso no rosto, diante da hospitalidade do povo belenense, tão simpático.

 

     Fui ao supermercado e encontrei jovens comprando coisas para se abastecer, como creme dental, sabonete, escova de dentes, pentes, água…

 

     De tarde, comecei a ver, cada vez mais, pessoas com o crachá do Fórum e a bolsa característica, com o jornal de atividades. Gente sentada nas praças (todas MUITO bem cuidadas em Belém), nos restaurantes, bares e hotéis, "caçando" atividades para participarem.

 

     Gente… o Fórum nem começou, mas o "outro mundo" já! Ainda que tenha começado apenas nos corações de poucas pessoas, é um mundo de valores com a força de se multiplicar, tomar posse de todos os continentes, países, cidades, bairros e ruas da Terra!

 

     O Fórum Social Mundial ainda não começou oficialmente, mas em Belém, outro mundo já é.

 

     ("O mundo não é. O mundo está sendo." Paulo Freire)

 

criado por boleiz    20:48 — Arquivado em: Ecopedagogia, Educação, Pedagogia

11/1/09

Ensino em ciclos de aprendizagem

Flávio Boleiz Júnior

 

Para compreender o significado de ciclos na educação, precisamos compreender o processo ensino-aprendizagem a partir de uma ótica não-viciada.

É muito comum escutarmos algumas pessoas (leigos em educação e mesmo especialistas) argumentarem contra os ciclos, dizendo que "na educação em ciclos os alunos passam ‘direto’, mesmo sem saberem nada". Esse tipo de argumento reflete, obviamente, ignorância ou má intensão mesmo!

No ensino seriado, a educação se dá exatamente "em ciclos". Nesse caso cada ciclo compreende o período de um ano e cada uma desses ciclos de um ano é chamado de série.

Ocorre que ao facultar aos sistemas de ensino desdobrar o ensino fundamental em ciclos, sem citar o tempo de duração de cada ciclo, a LDB possibilitou que o ensino pudesse ocorrer em cilos com duração diferente de um ano cada um. Dessa maneira é possível pensar-se em ciclos de 6 meses, de um ano, de dois ano, de três anos ou até mesmo de 8 anos, como ocorre na Inglaterra. Assim sendo, o aluno não "passa de ano sem saber nada", como querem os ignorantes ou mal-intensionados. o que se passa é que o aluno vai cursando o ciclo e só é retido se, ao final do ciclo, não tiver cumprido todos os objetivos educacionais, da mesma forma que ocorre no ensino em que a educação se dá por meio de séries anuais - ou seja, ciclos anuais.

Se o ciclo dura um ano e ao final desse período o aluno não cumpriu os objetivos planejados, ele é reprovado no ciclo. Da mesma forma, se o ciclo durar 3 anos e, ao final desse período, o aluno não tiver alcançado os objetivos planejados, ficaráretido no ciclo. A diferença está apenas no tempo de duração de cada ciclo!

A possibilidade que se abre com a LDB é muito interessante pois, estudando as características de cada faixa etária dentro do período total que compreende o Ensino Fundamental, percebe-se que há alunos que dão conta de determinados objetivos dentro de diferentes prazos, em ritmos individuais aproximadamente iguais, mas diferentes. Isso já pode ser percebido pelos educadores na educação en ciclos anuais. Com ciclos de duração diferenciadas, pode-se adequar o prazo para término de determinado ciclo de acordo com as necessidades da faixa etária com que se está trabalhando.

Na cidade de São Paulo, sob a coordenação de Paulo Freire - durante o governo de Luiza Erundina - a Secretaria de Educação implantou, em colaboração com os professores da rede, o ensino em ciclos no ensino fundamental, dividindo-o em três partes: 2 ciclos de três anos e 1 ciclo de 2 anos. Cada um desses ciclos levava em conta os estudos relativos aos perfis psicológicos e sociológicos de cada fase de desenvolvimento da criança.

Já sob o governo de Paulo Maluf, os ciclos foram descaracterizados, passando-se a dividir o Ensino Fundamental emn 4 ciclos de dois anos, organizando- se o ensino em uma seqüência de períodos seriados de dois anos. Essa descaracterização permaneceu sob os governos de Celso Pita (argh), Marta Suplicy, José Serra e Kassab. Com essa organização descabida, sem bases científicas para a divisão, os educadores seguem fazendo milagres no trabalho de alfabetização e instrução da criançada.

Bom… espero ter colaborado para com a compreensão do ensino em ciclos. Aliás, gostaria de indicar um livro bem interessante que aborda bem essa questão: "Reprovação escolar, renúncia à educação", de Vitor Henrique Paro.

Em tempo, apenas a título de informação, na Inglaterra o ciclo é único, com 8 anos de duração. Ao final do ciclo o aluno se submete a uma prova avaliativa que lhe confere uma nota, que lhe servirá de parâmetro para escolha da escola em que continuará seus estudos.

criado por boleiz    21:07 — Arquivado em: Educação, Pedagogia
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